sexta-feira, julho 06, 2007

A REAÇÃO CONDICIONADA

Celso Deucher*

"Separação política, não pode mais ser considerada como declaração de guerra. O Canadá, por exemplo, demonstrou sua grandeza de sabedoria política permitindo o plebiscito de Quebec"...


Novos conceitos mexem com velhos condicionamentos. Uma discussão política, por exemplo, se não for elevada a tom acadêmico, às luzes da neutralidade, livre e desempedida de preconceitos, ao invés de promover rupturas de muralhas ou à descoberta de alternativas inteligentes, poderá provocar simplesmente o agravamento de relações que poderiam, permanecer sempre amistosas, ou pelo menos respeitosas.

Lendo o artigo do jornalista Laerte Braga, intitulado "OS MUITOS BRASIS NUM SÓ BRASIL", por exemplo, sentimos de perto o poder do conhecimento condicionado ao que nos impingiram, desde que o Estado centralizado surgiu no continente brasílico, antes mesmo que houvessem povos em sua imensa posse territorial. O Estado aqui surgiu como realidade geográfica, independente da vontade de qualquer povo, sem nação e sob o talante autônomo absolutista de uma monarquia escravagista e absurdamente duradoura.

A sociedade não foi organizada pela simples razão de não existir povo que a formasse e o Estado lhe foi anterior, formatando-a paulatinamente nos moldes de uma metrópole colonialista européia, obtusa e alheia à diversidade continental de suas pequenas e esparsas comunidades humanas. Não vai nesta constatação qualquer crítica ao gênio e às grandes qualidades do espírito português. Apenas o entendimento de que a época faz o cenário. E, a de que vivemos entre os pesadelos e os sonhos de uma ficção imposta por uma história coberta de sepulturas. Lembremo-nos da Confederação do Equador, da República Rio-Grandense e das muitas outras rebeliões em busca da liberdade.

As críticas do nosso bem intencionado jornalista mineiro, em pleno ano de 2001, não seriam muito parecidas com as dos que não aceitavam a separação do Brasil de Portugal? Se tivéssemos permanecido juntos, não acabaríamos tendo o centro de gravidade geopolítica transferido naturalmente para o Brasil, galvanizando a unidade confederativa de um grande "commonwealth" luso-brasileiro, com associados em todos os continentes do mundo? Não faríamos hoje parte da Comunidade Européia?

O projeto da unidade luso-brasileira foi levada em consideração por diversos espíritos lúcidos demais para a época. As políticas internas e a mentalidade atrasadíssima, entretanto, faziam jús ao cenário que se desenrolava, sob o embalo dos interesses alheios aos povos.

A separação brasileira de Portugal nunca foi percebida como uma perda. Ao contrário, a independência é sempre considerada como um ganho. O separatismo mineiro, do qual Tiradentes foi considerado herói máximo pela mitologia republicana, mas foi julgado infame pelo Conde de Rezende que assinou sua sentença de morte. Mas,curiosamente, ainda existe o município que aloja a Academia Militar de Agulhas Negras, com o nome "Rezende" em homenagem ao mesmo conde, que teria beneficiado de alguma maneira aquela linda região fluminense. Coisas de Brasis...

Separação política, não pode mais ser considerada como declaração de guerra. O Canadá, por exemplo, demonstrou sua grandeza de sabedoria política permitindo o plebiscito de Quebec. Evidentemente, nenhum país hoje se separa totalmente. Os laços de integração econômica e, freqüentemente, de defesa comum garantem relações recíprocas de maior qualidade do que anteriormente. O caso da Comunidade Britânica de Nações, é um parâmetro que mereceria uma detida análise daqueles que adoram o bezerro de ouro do Estado poderoso, imperial, em detrimento da autodeterminação dos povos e da própria democracia, em benefício de uma casta política dominante e, geralmente, corrupta e autoritária.

O jornalista referido, critica com honestidade políticos corruptos de todos os Brasis. Não percebeu, entretanto, que eles existem em função do clientelismo de Brasília e de uma unidade forçada que nos têm trazido mais mazelas do que virtudes. O remédio do verdadeiro federalismo nunca foi adotado, como nos Estados Unidos da América, onde seus estaduanos podem votar em qualquer despreparado para a presidência da República, pois manda menos do que o "príncipe" planaltino de plantão.

Ora, à cada eleição presidencial dos Brasis, ficamos amedrontados diante dos riscos que corremos. Além disto, ainda temos um Congresso capenga que prima pela ilegitimidade democrática, onde 40% da população detém o controle legislativo de 60% das cadeiras. Se fossemos nos alongar no assunto, percorreríamos todo um elenco de razões, tais como os abusos tributários e a política de "entreguismo" bem suscitada pelo jornalista mineiro, suficientes para uma declaração de independência convincente ao Mundo.

Outro aspecto que merece menção, é o fato real de que a maioria dos que abraçam ou sonham, pacificamente, com a possibilidade democrática de poder votar num plebiscito de autodeterminação, não terem qualquer fundamentação política numa pretensa superioridade discriminatória em relação aos outros brasileiros. Sulistas, Nordestinos, Nortistas, Paulistas, Mineiros, apenas têm a percepção viva de que são tão diferentes entre si e que mereceriam tocar suas vidas de maneira diferente, sujeitos a leis próprias e condizentes às suas realidades de seus espaços culturais e naturais. Qual o pecado desta descoberta?

O receituário da unidade não poderá ser mais linear no Século XXI, muito menos ainda cartesiano como um Tratado de Tordesilhas, protegida sob o manto protetor de uma vontade espiritual ou temporal. Ninguém se separa pelo fato de haver descoberto que sozinho poderá ser maior ou mais poderoso. Separa-se apesar de alguma ou de muitas coisas, para poder ser melhor. Separa-se por amor próprio.

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