domingo, abril 30, 2006

OPINIÃO:

NÃO ROUBEM NOSSA CULTURA

Por Adilcio Cadorin *

“Para o centralismo, brasileiro, muito parecido com o russo, é direito do povo mais forte dominar culturalmente os mais fracos, fazendo a exaltação de uma nação armada que oprime as outras”.

Definir a democrática cultura federalista é bastante fácil: e uma cultura que se baseia essencialmente sobre a liberdade do indivíduo, sobre sua responsabilidade na história da humanidade e sobre o respeito à pessoa humana, contra qualquer tipo de determinismo histórico, social, ou fatalístico.

O indivíduo existe porque projeta a própria existência em projeto pessoal, que não pode, de modo algum, ser condicionado pela sociedade em que vive e pelas suas instituições.

Ao invés disso, segundo imperante cultura centralizadora, vigora um gênero de determinismo para quem o partido, a classe social, o regime e o sistema representam as tendências inegáveis de uma história a quem o indivíduo não pode sobrepor-se, ou virá a ser esmagado, achatado.
A burocracia política que governa o Estado, as assim ditas instituições, se arrogam no direito de exercerem todos os poderes sobre as pessoas, sobre bens produzidos ou herdados, como sobre a cultura do individuo, dele mesmo produzida ou herdada da família, do grupo social e do povo a quem pertence.

Para esta “casta de sacerdotes” da política, também os povos, com suas culturas, dialetos e pronúncias lingüísticas diferentes, com suas diversidades cívicas, religiosas e tradições, são tratados na mesma medida dos indivíduos: não tem a saber direitos, se não servirem ao projeto político do centralismo.

A ditadura de uma só língua, o achatamento das expressões, pronúncias, dialetos e das correntes culturais diversas, é efeito da cultura dominante a partir da escola, com um corpo de professores burocratas, recrutado por àqueles que ensinam um gênero de “Legião Estrangeira “ da cultura pronta a reprimir qualquer afirmação de liberdade e de autonomia.

Todavia, não podendo proceder por via da “aldeia global”, que empurra ao engano universal da globalização todos os empreendedores, os poetas e os artistas, o centralismo brasileiro inventou e importou, através dos meios de comunicação, novos e alienígenos costumes, utilizando-se do rádio, TV, jornal, cinema e teatro. Mesmo assim, não conseguindo suprimir totalmente as expressões das nossas já existentes culturas e liberdades regionais, construiu um gueto para perseguir e ofuscar cada afirmação regional original, através da chamada “cultura nacional”, cuja maior expressão está estratificada nas novelas e nos programas de alienação coletiva, destinadas ao “povinho” e a todos aqueles que são considerados muito “ignorantes” para fazer parte da restrita cúpula dominante, e para que esqueçam e enterrem definitivamente os seus costumes e tradições originais.

Ignoram os sotaques e expressões sulistas, nortistas, o “portunhol” e as diversas línguas nativistas; as lendas do saci pererê, do negrinho-do-Pastoreio, de iemanjá, os folclores do boi-de-mamão, do bumba-meu-boi; as sagas populares, as danças típicas regionais (sulistas, amazônicas ou nordestinas); ocultam nossas artes plásticas, que dizem ser “pobre”; sufocam nossa diversidade religiosa. Com uma peneira, pretendem esconder o sol de nossas diferenças culturais, que, por não terem espaços, estão oprimidas, não sendo permitido ao cidadão os meios para encontrar-se e identificar-se com sua diversificada e rica cultural regional.

Não podendo recorrer a supressão física da cultura da massa excluída, a cultura pregada pelo centralismo brasileiro tem amalgamado, englobando-a em si, qualquer corrente boa para contrastar o pensamento político do verdadeiro federalismo, das autonomias regionais. A cultura imposta pelos ladinos do sistema é falsamente aberta: trata-se de uma desordem cultural, um “pastel” amalgamado por quem sabe, mas finge que não sabe, das muitas diferenças de nossas diversas etnias, culturas, tradições e costumes, renegando a vigência do princípio de respeito a diversidade cultural prevista no verdadeiro federalismo.

Para o centralismo, brasileiro, muito parecido com o russo, é direito do povo mais forte dominar culturalmente e economicamente os mais fracos, fazendo a exaltação de uma nação armada que oprime as outras. A diferença é que na Rússia ainda se oprime com armas, e aqui as armas são as redes nacionais de comunicação de massa, o Congresso Nacional e os mais de cento e cinqüenta ministérios, departamentos, estatais, e órgãos do Executivo Nacional, todos instrumentos do centralismo, que intrometem-se em nosso “dia a dia”, e não respeitam o diferente regional, renegando o próprio federalismo, que dizem ser constitucional.

Por essas pessoas tudo é homologado, em troca de favores econômicos, porque para eles a cultura regional não existe. Quanto muito, julgam que todas as nossas diferenças podem produzir um único “minestrone”.

O individuo, a pessoa, a sua cultura, suas tradições, seus costumes, suas vocações produtivas, o seu modo de viver, vem sistematicamente desprezados e dispensados, sem jamais serem expostos e considerados pelos grandes meios de comunicação massificados. Para estas pessoas, o sentimento de liberdade e de autonomia regional é vulgar e algo que não pode e nem deve ser exposto à população, posto que nos consideram com “mentes fracas”, incapazes de termos responsabilidade para nos autodeterminarmos regionalmente.

O regime confederado vai mais longe. No dizer de Archimede Bontempi, “é aquele que acende a luz e faz descobrir que existem tantas cores e formas diversas: a minha casa, o meu bairro, a minha cidade, os meus campos, meus monumentos, meus antepassados, meus bens. Não são patrimônio das instituições, de partido, do Estado, da Nação. São meus patrimônios materiais e morais, e eu estou disposto a defende-los!”.

O confederalismo é aquele regime que defende e respeita criticamente a própria cultura e o próprio modo de viver, os interesses vitais do próprio território, sabendo muito bem que não deve confrontá-la e molda-la com outras diferentes culturas, com outra realidade humana com outras tradições sociais. Respeita o outro, mesmo quando diverge da sua própria cultura, principalmente porque acredita que todos devam respeitar sua identidade e os seus valores. O confederado combate contra esta idéia vulgar que o Estado possa expropriar os cidadãos de seus bens culturais e materiais, da sua linguagem, da livre expressão da própria tradição: na futura cultura de um regime de estados independentes e confederados, as diferenças deverão crescer e confrontar-se como se confrontam os mercados, mas mantendo as relações indispensáveis.

Nenhum deve poder comandar a casa de seu próximo. A intromissão e o achatamento de nossos expressões culturais é o meio de exercer um poder maléfico, de corrupção e de destruição do orgulho nacional, sustentado pela cultura centralizadora dominante, que, para manter-se no leme da nau, passa a navegar no mar revolto de putrefata impunidade. O resultado é a falta de auto-estima, a descrença nas instituições, a desesperança e o desestimulo, relegando-nos a deriva, sem termos confiança e certeza no rumo que navegamos.

Os defensores deste nosso projeto de descentralização e desconcentralização do Poder, que caracterizam-se pela sua dotação de coragem, fé e de grande respeito, são hoje os militantes e simpatizantes do Movimento O Sul é o Meu País, cujos ideais têm demonstrado a insustentabilidade e a fragilidade da farsa federalista brasileira, que mais cedo do que se pensa, derrotará o grupo e a cultura da classe dominante, livrando-se dos comportamentos que atentam contra nossa cidadania, e colocam em risco a frágil unidade nacional.

Resta-nos tão somente acreditar que os estados brasileiros, principalmente os do Sul, resistirão na trincheira da valorização de suas diferentes culturas, trincheira esta representada pela democrática reivindicação das suas autonomias, estabelecendo um verdadeiro regime confederado, mantendo um mínimo de unidade nacional, calcado no respeito recíproco à cada uma das futuras unidades confederadas, tendo como instrumentos, para esta busca, o comportamento respeitoso com os demais estados, de forma responsável e leal, com coragem, dignidade, honestidade.

*O autor é advogado em Santa Catarina, fundador e ex-presidente do Movimento O Sul é o Meu País no Estado Barriga Verde.

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